A enfermeira Thaís Saito publicou, na noite de ontem (15), em seu perfil do Facebook, o vídeo onde, inesperadamente, aborda o prefeito Luiz Fernando Machado, durante reunião que fazia com moradores do Jardim Santa Gertrudes, no mês passado.
A reunião, que tinha como pauta a prestação de contas da administração pública, foi interrompidaquando a enfermeira, mesmo sem o uso de microfone, tomou a palavra e iniciou o relato de casos ocorridos na UPA do bairro Novo Horizonte, onde trabalhou como funcionária, sob o regime da CLT, da Organização Social de Saúde (OSS) Fênix do Brasil e foi demitida.
Antes do início dessa reunião, Saito disse que “chegou a falar com o gestor de Saúde, Tiago Texera, mas que, em resposta, ouviu dele que as provas que tinha não serviam para nada”.
Segundo o vídeo e o texto publicados, as provas por ela citadas dão conta, em parte, de ‘prints’ do grupo de enfermeiros no WhatsApp, nos quais aparecem textos da coordenadora de saúde, em conversa com colegas de trabalho.
Logo no início de sua intervenção na reunião, como mostra o vídeo, Saito disse que “ali naquela Unidade de Pronto Atendimento (UPA) os funcionários aplicavam água destilada ou dipirona no lugar de medicações como morfina, em pacientes com fortes dores”.
Além disso, ela disse que “os funcionários, incluindo gestores que eram coniventes com este crime, tripudiavam dos pacientes, por meio de mensagens, via WhatsApp”.
Saito também disse, em texto de sua página do Facebook, que “chegou a denunciar a ocorrência aos gestores e conselheiros daquela unidade, mas, sem sucesso. E que ainda foi demitida por represálias”.
“Minha demissão me deu muito orgulho, porque jamais me prestaria a essa imoralidade! Ao obter meu COREN (registro de enfermeiros em seu conselho de classe) fiz um juramento: Salvar vidas e não tirá-las!, disse ela.
Questionada por telefone pela reportagem, ao final da tarde desta quinta-feira (16), Saito confirmou a publicação do vídeo na noite de ontem e também o que nele denunciou.
“Publiquei o vídeo, sim! E não faria isso se não tivesse provas! Aliás, essas provas estão há mais de um ano com o membro suplente de conselheiro do Conselho Gestor daquela UPA, senhor Cleber (Raimundo de Oliveira), a quem fiz a denúncia e estou aguardando até agora alguma resposta”, disse Thais Saito.
“Penso que ele (Cleber) deve receber algum favor de alguém, já que entregou as provas ao gestor de Saúde, Tiago Texera e, penso também, que, por isso, se dá essa demora na tomada de providências. Mas, talvez ele (Cleber) tenha se esquecido de que tenho cópias de tudo”, arrematou.
Uma das principais provas, que Saito assegura ter,diz respeito a um ‘print’ de conversas entre os participantes de um grupo de WhatsApp.
“O gestor de saúde, Tiago Texera me disse que as provas que apresentei não servem para nada. Vamos esperar. Num dos ‘prints’ que tenho, aparece um dos integrantes do grupo, dizendo exatamente o seguinte: bom dia! Estamos com um paciente que está com dependência de morfina, já conversei com o Dr. (...) e estamos fazendo placebo (...)”, disse Saito.
A enfermeira também transcreve outro ‘print’.
“Ele tomou placebo e saiu feliz... Só ontem foram quatro ampolas...”, diz o ‘print’ citado e guardado por Saito.
Por último, a enfermeira esclarece sobre datas.
“Já estão dizendo, hoje, que este vídeo é do ano passado e que tudo já está resolvido. Mas isso é mentira! Fiz a denúncia em março de 2019. Fiquei esperando providências do gestor de Saúde, Tiago Texera, a quem o senhor Cleber entregou as provas e, como não obtive resposta, fiz o vídeo na reunião do Santa Gertrudes, que ocorreu em março deste ano. Esperei tanto tempo assim, porque Cleber havia me dito que teria levado o caso ao Ministério Público, o que não ocorreu”, esclareceu.
FÊNIX DO BRASIL
A diretora da Fênix do Brasil, ex-empregadora da enfermeira Thais Saito, não retornou à ligação feita pela reportagem.
PREFEITURA DE JUNDIAÍ
A Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Jundiaí não atendeu à solicitação de informações do Jundiaí Saúde.
GESTOR DE SAÚDE
Em grupo de WhatsApp, recém criado dentre os membros da Comissão Executiva do Conselho Municipal de Saúde (COMUS), o gestor de Saúde, Tiago Texera, disse que não existe placebo na UPA do Novo Horizonte.
“Pessoal, um informe ao Conselho... Hoje circulou uma postagem na rede social, acerca de uma “possível denúncia” de uso de medicamentos placebos na UPA do Vetor Oeste de Jundiaí em 2019. Informo que o vídeo é de uma ex-funcionária da UPA, coligada a um partido político, que estará respondendo pelos seus atos publicados na rede social”, diz Tiago Texera ao grupo.
“Referente à “denúncia” informo que na época que foi trazida, levamos a “denúncia” ao conselho local da UPA, que apurou a mesma, além de um procedimento administrativo aberto pela própria gestão da UPA que também apurou a “denúncia”, continua o gestor.
“Tanto o conselho local da UPA, quanto o procedimento administrativo realizaram a apuração e não foi encontrado qualquer indício que na UPA exista medicamentos placebos. Inclusive foi lavrada a ata do conselho local da UPA com o parecer de que a denúncia é infundada”, finaliza o informe do gestor Texera ao grupo.
CONSELHEIRO LOCAL
O conselheiro do Conselho Gestor da UPA Novo Horizonte, Cleber Oliveira, publicou também no Facebook, na tarde desta quinta-feira (16), nota de esclarecimento, seguida de vídeo, onde faz suas considerações contra a enfermeira Thais Saito.
Na nota, ele diz que “O Conselho Gestor da UPA não compactua com nenhuma inverdade em relação ao trabalho prestado na saúde do nosso município. Com saúde não se faz política, se salva vidas”, diz a nota do conselheiro Cleber.
Já no vídeo, Oliveira disse que “no começo do ano passado, recebemos uma denúncia de uma munícipe aqui de nossa cidade em relação ao uso de placebo dentro da UPA. O que é placebo? Placebo é um medicamento usado para pesquisasem universidades na área de medicina; e centros de pesquisas utilizam esse tipo de medicamento. Nenhum outro equipamento de saúde tem acesso a esse tipo de medicamento, que é o tal de placebo”, inicia a fala do conselheiro no vídeo.
“Assim que recebemos a denúncia, o Conselho convocou o gestor de saúde que nos atendeu, fizemos reunião lá na UPA, com ata. O gestor nos deu aval para poder investigar. E essa investigação durou dois meses e nela não foi encontrado nenhum tipo de irregularidade. (...) Aqui está a lista de todos os medicamentos utilizados na UPA e não foi encontrada nenhuma irregularidade”, continua Oliveira.
O conselheiro finaliza o vídeo dizendo que “(...) a gente não pode permitir que nenhuma mentira possaviralizar em questão da saúde de nosso município. Porque com saúde não se faz politicagem; se salva vidas. E isso é infundável. Não existe nenhuma irregularidade lá na UPA, muito menos o uso de placebo”, conclui.
CONSELHEIRO MUNICIPAL
O conselheiro municipal de Saúde, Joaci Ferreira da Silva, questionado pela reportagem, fez duras críticas ao conselheiro local, Cleber Oliveira.
“Em primeiro lugar gostaria de dizer que, “enquanto o senhor Cleber era do mesmo partido político da enfermeira Thais Saito, ela estava correta e ele a ajudou a levar essa denúncia adiante. Agoraseparados politicamente, na opinião dele, ela está errada e nada disso existiu na UPA. Ora! Então ele desmentiu ele mesmo!”
Silva fez alerta sobre política e saúde e, por último,questionou o conselheiro Cleber Oliveira.
“É necessário que as pessoas parem de politizar a saúde! Estamos tratando de vidas! Eu só gostaria de terminar minha fala para esta reportagem com uma pergunta: Onde estão as provas que Thaís entregou ao senhor Cleber? Só isso. É bastante”, finalizou.